vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) publicou nas redes sociais, nesta quarta-feira (11), um texto em inglês em que relaciona o crime organizado brasileiro ao grupo libanês Hezbollah e sai em defesa da iniciativa do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
A publicação ocorre no momento em que o governo de Donald Trump discute oficialmente a inclusão das duas facções brasileiras na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), uma decisão que pode abrir caminho para sanções econômicas e até ações militares dos EUA no Brasil.
No texto, Carlos Bolsonaro afirma que “investigações de segurança e relatórios de inteligência apontam há anos para a presença de redes ligadas ao Hezbollah na região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina”. Segundo ele, essas redes estariam envolvidas em “contrabando, financiamento ilícito e lavagem de dinheiro” e teriam “interações com o crime organizado brasileiro, particularmente o Primeiro Comando da Capital”.
O vereador prossegue afirmando que, no Brasil, “o PCC e o Comando Vermelho controlam grande parte do tráfico de drogas e expandiram suas operações internacionalmente”, defendendo abertamente a iniciativa do governo norte-americano que pode abrir caminho para uma intervenção armada no Brasil.
Possibilidade de intervenção
O processo técnico para classificar PCC e CV como organizações terroristas já teria sido concluído no Departamento de Estado dos EUA. Restariam apenas etapas políticas e burocráticas para formalizar a decisão.
A designação tem consequências amplas. Além de sanções financeiras, como congelamento de ativos e exclusão do sistema bancário norte-americano, ela permite que os EUA tratem estruturas dessas organizações como alvos “legítimos” de ações militares, inclusive fora de seu território.
A possibilidade preocupa autoridades brasileiras, que veem na medida uma ameaça à soberania nacional. Especialistas alertam que esse enquadramento pode servir de justificativa jurídica para operações armadas sob o argumento de combate ao “narcoterrorismo”, algo que já foi sugerido em outros contextos pelo próprio governo norte-americano.
Bolsonarismo atua para pressionar Washington
A fala de Carlos Bolsonaro ocorre após meses de lobby internacional promovido por membros do clã Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, comemorou publicamente a possibilidade de Washington adotar a medida. Em publicação nas redes sociais, ele escreveu: “O governo dos Estados Unidos deve classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Isso permite bloquear dinheiro, perseguir financiadores e sufocar essas facções”.
Em outro episódio, o senador chegou a pedir ao secretário da Guerra do governo Trump que realizasse ataques contra embarcações supostamente ligadas ao tráfico na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
A articulação envolve também aliados ideológicos da família Bolsonaro nos EUA. O governo Trump nomeou recentemente o extremista Darren Beattie para atuar como assessor para políticas relacionadas ao Brasil, figura que já protagonizou incidentes diplomáticos ao atacar instituições brasileiras. Beattie, inclusive, recebeu autorização para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão no dia 18 de março.
Hezbollah no Brasil?
Na publicação, Carlos Bolsonaro também menciona o alinhamento entre o governo Trump e Israel, citando o país como referência de política externa e segurança.
Ao associar o PCC ao Hezbollah — organização considerada terrorista por Israel e pelos EUA — o vereador reforça uma narrativa que tem sido utilizada por setores da direita internacional para enquadrar o crime organizado brasileiro dentro da lógica da “guerra ao terror”.
Essa ligação, porém, nunca foi comprovada de forma conclusiva. Investigações iniciadas nos anos 2000 apontaram apenas suspeitas de possíveis conexões na região da tríplice fronteira, mas o elo entre o grupo libanês e facções brasileiras jamais foi estabelecido de forma clara.
Em 2023, uma operação da Polícia Federal (PF) contra suspeitos de planejar ataques no Brasil teve como base informações fornecidas pelo Mossad, a agência de inteligência israelense, e por autoridades dos EUA. O episódio ilustra como dados de inteligência estrangeira vêm sendo utilizados em investigações relacionadas ao tema no país.
Ao citar Israel e relatórios internacionais para sustentar a narrativa de conexão entre PCC e Hezbollah, Carlos Bolsonaro sugere, ainda que indiretamente, a participação de serviços de inteligência estrangeiros na construção do argumento que pode fundamentar a decisão norte-americana.
Governo Lula reage e fala em dissuasão militar
Diante do avanço da proposta em Washington, o governo brasileiro tem buscado reabrir canais diplomáticos para evitar a designação.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (9) que o país precisa reforçar sua capacidade de defesa diante de possíveis ameaças externas. Em declaração durante visita do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa ao Brasil, Lula alertou para o risco de agressões estrangeiras.“Presidente Ramaphosa, uma coisa importante. Aqui, na América do Sul, nós nos colocamos como uma região de paz. Aqui ninguém tem bomba nuclear, aqui ninguém tem bomba atômica (…) Então nós pensamos em defesa como dissuasão, mas eu não sei se o companheiro Ramaphosa percebe que, se a gente não se preparar na questão de defesa, qualquer dia alguém invade a gente”, afirmou.
O presidente também defendeu que o Brasil invista na produção própria de armamentos em parceria com a África do Sul. “Não precisamos ficar comprando dos senhores das armas, nós poderemos produzir. O que precisa é nós nos convencermos que ninguém vai ajudar a gente, a não ser nós mesmos”, disse. (Revista Fórum)




