Michelle Bolsonaro teve uma reação furiosa e desesperada ao assitir ao desfile da Acadêmicos de Niterói, no Grupo Especial das escolas de samba do Rio, e ver que seu marido, o ex-presidente golpista condenado Jair Bolsonaro (PL) foi representado pelo palhaço Bozo, e preso. A escola homenageou o presidente Lula (PT) e reconstruiu episódios históricos recentes nos quais o chefe de Estado foi perseguido.
A ex-primeira-dama foi logo cedo às redes para, em tom irascível, atacar Lula e a encenação alegórica feita na “avenida” pela agremiação carnavalesca fluminense.
A primeira noite dos desfiles das escolas de Samba do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí foi marcada por um momento de forte carga simbólica. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), homenageado pela Acadêmicos de Niterói, protagonizou uma cena que quebrou o protocolo: visivelmente emocionado, o mandatário desceu do camarote da Prefeitura do Rio e foi até a pista para beijar o pavilhão da agremiação. Ele não entrou na “avenida” e não desfilou, como já era previsto.
O gesto ocorreu no momento em que o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira se aproximou do setor onde o presidente estava. Lula, acompanhado pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), deixou a área reservada e foi ao encontro do pavilhão azul e branco no segundo recuo da bateria, sob aplausos e gritos de apoiadores nas arquibancadas e camarotes próximos.
Cautela jurídica e ausência na “avenida”
Apesar da proximidade física com a escola, Lula não participou formalmente do desfile. A decisão de não integrar nenhuma ala ou carro alegórico partiu de uma orientação direta do setor jurídico do Palácio do Planalto.
O objetivo da recomendação foi blindar o presidente de possíveis questionamentos junto à Justiça Eleitoral. Em um ano de eleições, os juristas que assessoram a Presidência avaliaram que a participação ativa no desfile poderia ser interpretada pela oposição como propaganda eleitoral antecipada, ou abuso de poder econômico, dado que o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” celebrava sua trajetória pessoal e política.
Bolsonaro como Bozo
Se a passagem da Acadêmicos de Niterói pela Sapucaí foi uma ode à trajetória do presidente Lula (PT), o enredo reservou uma carga de sarcasmo e crítica contundente ao homem que tentou tirá-lo do poder à força. Numa narrativa visual que não poupou simbolismos, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi retratado para o mundo como aquilo que realmente ele é: um criminoso golpista e condenado, que cumpre pena por ter tentado derrubar o regime democrático brasileiro. No entanto, para contornar eventuais problemas jurídicos, a agremiação utilizou um personagem que por anos serviu de apelido para o antigo mandatário de extrema direita: o palhaço Bozo.
A escola, que estreou no Grupo Especial, utilizou alegorias e encenações coreografadas para recontar a história recente do Brasil sob uma ótica de resistência e vitória da democracia. A grande estrela foi Lula, o homenageado, mas não faltaram menções aos inimigos que de forma suja e ilegal tentaram vencê-lo.
A sucessão de máscaras: De Temer ao Bozo
Um dos momentos mais comentados ocorreu logo no início do desfile, em uma encenação sobre a linha sucessória da República. O público viu bonecos com cabeças de proporções exageradas, mas realistas, identificando claramente a ex-presidenta Dilma Rousseff, o atual presidente Lula e o ex-presidente golpista Michel Temer.
Na performance, a figura de Temer foi representada “tomando” a faixa presidencial de Dilma, uma alusão direta ao impeachment farsesco e fraudulento de 2016. No entanto, o tom mudou drasticamente na sequência: o personagem que surgiu para receber a faixa de Temer não tinha as feições reais de Jair Bolsonaro, mas sim a maquiagem e os cabelos característicos do palhaço Bozo, apelido pejorativo que marcou sua gestão.
Cela e toga: A sátira da prisão
A crítica subiu de tom nos carros alegóricos. Em uma das composições, a escola apresentou uma cela de prisão onde a figura do Bozo aparecia enclausurada. Ao seu lado, um personagem careca vestindo uma toga, uma referência inequívoca ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, foi representado azucrinando o ex-presidente desesperado.
A cena simbolizou o cerco judicial que culminou na prisão de Bolsonaro. Para fechar o conceito, uma gigantesca alegoria trouxe um boneco colossal do palhaço Bozo sentado atrás de grades de ferro, usando uma tornozeleira eletrônica danificada, enquanto componentes ao redor celebravam o que o samba-enredo chamou de “o triunfo da justiça sobre o medo”. (DCM)





