O presidente Lula articula uma aliança com MDB e PSD para ampliar governabilidade e, de quebra, esvaziar o discurso de que a direita já teria “dono” em 2026. Uma costura no Piauí, com PT, MDB e PSD alinhando a disputa ao Senado, virou recado nacional sobre o cenário que o Planalto quer montar.
O acordo no Piauí amarra o PT ao senador Marcelo Castro (MDB) e ao deputado Júlio César (PSD), enquanto empurra o senador Ciro Nogueira (PP) para o isolamento local.
No plano político, Lula joga luz sobre um ponto sensível da oposição: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comprou briga com o secretário de Governo paulista, Gilberto Kassab (PSD), presidente nacional do PSD, ao tratar “submissão” como insulto e “lealdade” como marca pessoal.
Kassab ficou para escanteio na vice em São Paulo. Tarcísio abriu espaço para o PL e, com isso, o PSD se sentiu desobrigado de seguir o roteiro bolsonarista, ganhando liberdade para negociar com Lula na eleição de outubro.
O ruído não é folclore. Kassab tem máquina municipal, influência no interior e a chave de parte do centro político, mas Tarcísio, ao elevar o tom, produz um efeito colateral óbvio: dificulta dividir o mesmo palanque e o mesmo “banquete” com o comando nacional do PSD. Em política, foto forçada vira crise anunciada.
Esse curto-circuito paulista interessa a Lula porque abre uma avenida. Se o PSD se vê constrangido na engrenagem bolsonarista, e se o MDB segue no papel clássico de partido-ponte, o Planalto ganha espaço para discutir a vice com um nome desses dois campos, sem depender do humor da esquerda mais identitária nem do centrão mais chantagista.
É aqui que entra o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD). O próprio noticiário de bastidores já vem registrando o recuo da “corrida solo” do paranaense ao Planalto, com férias prolongadas nos EUA e a leitura local de que o roteiro mais provável pode ser o Senado, não a Presidência.
Por isso, quando Lula sinaliza aliança com MDB e PSD em um estado e, ao mesmo tempo, a direita paulista se atrita com Kassab, o resultado prático é um só: o presidente reposiciona o centro como peça da sua engenharia eleitoral. E, nesse desenho, a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) vira menos “inevitável” e mais dependente de um consenso que não aparece, nem dentro do PSD, nem na costura ampla do sistema político.
Portanto, Lula faz o que sabe: oferece poder, reduz risco e transforma o racha alheio em oportunidade. Se a oposição insiste em brigar por lealdade enquanto perde base no centro, o Planalto agradece e negocia de cima. (Esmael Moraes)






