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4 junho 2026

Facções usam dinheiro e drogas para compra de votos

Relatos de compra de votos multiplicam-se pelo Brasil em anos eleitorais. Investigadores alertam para um fenômeno novo: a infiltração direta do crime organizado no processo democrático.

O que antes era uma prática de corrupção isolada, agora afeta a liberdade de escolha do cidadão e a própria segurança do pleito, com grupos como o PCC, Comando Vermelho e milícias financiando candidatos com dinheiro oriundo de tráfico e roubos.

“Esse fenômeno já acontecia e agora está saltando aos olhos”, diz Nathalia Mariel, procuradora da Procuradoria-Geral Eleitoral. “Ele afeta não só para fins de corrupção, a compra de votos em si, mas na escolha de candidatos, na possibilidade de as pessoas exercerem o seu direito de votar efetivamente de maneira livre.”

Em territórios controlados pelo crime organizado, o eleitor que vende o voto transforma-se em refém.

No Rio de Janeiro, a gravidade da situação levou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) a tomar medidas drásticas: nas últimas eleições de 2024, o endereço de 53 locais de votação foi alterado para proteger eleitores de ameaças e coações.

Para 2026, o tribunal já identificou ao menos 20 zonas eleitorais que precisarão mudar de lugar para evitar a influência criminosa.

O desembargador Claudio de Mello Tavares, presidente do TRE-RJ, enfatiza que o sistema eletrônico de votação é seguro e o voto é secreto. Ainda assim, o crime foca em constranger fisicamente os eleitores. “Já tivemos casos em que o traficante ou o candidato apoiado pela milícia estava adentrando no local de votação, ameaçando o eleitor”, afirma o magistrado.

Casos como o do policial militar Michel Maia e do candidato Dinho Resenha, ambos condenados por corrupção eleitoral em Belford Roxo (RJ), ilustram essa conexão entre agentes do Estado, candidatos e o “poder paralelo”.

Dinho é suspeito de ligação com a milícia. Michel era cabo eleitoral de Dinho e foi flagrado em escutas ameaçando eleitores e relatando pagar de R$ 50 a R$ 100 por votos no candidato.

A infiltração do crime nas eleições não se restringe aos grandes centros. No interior do Paraná e em Santa Catarina, as autoridades enfrentam desafios crescentes.

Em Timbé do Sul (SC), uma investigação de tráfico de drogas revelou um esquema de compra de votos utilizando cocaína como pagamento. “Foi a primeira vez, em 15 anos como delegado de polícia, que nós conseguimos verificar uma compra de voto com cocaína, com droga”, afirma o delegado da Polícia Civil Lucas Fernandes da Rosa.

Arte - Diálogo do PM Michel Maia identificado em investigação sobre compra de votos. — Foto: Arte/GloboNews

O celular apreendido do traficante Claudiomir da Silva detalhou a negociação: fotos do título de eleitor eram trocadas pelo equivalente a R$ 50 pagos em “moeda branca” — gíria para a droga.

Um eleitor confessou à polícia ter enviado a foto do documento e recebido a “mercadoria” em troca.

O candidato beneficiado, Sadi Vieira, se elegeu vereador e chegou a presidir a Câmara Municipal, sendo condenado por corrupção eleitoral apenas no último mês de seu mandato, em 2024.

A defesa do policial militar Michel Maia ressaltou que aguarda julgamento de recurso e que, por isso, a condenação por corrupção eleitoral ainda não é definitiva.

A defesa do então candidato Dinho Resenha disse que as acusações não são verídicas e que não há provas suficientes. Também destacou que o processo ainda está em andamento.// E que, após esgotamento de todos os recursos cabíveis, a inocência será comprovada.

Desafios na investigação

 

Promotores explicam que investigar esses crimes é complexo por serem delitos “herméticos”, que ocorrem em círculos fechados ou familiares, onde o medo impede testemunhos.“É um círculo muito próximo. Você imagina como é que essas pessoas vão eventualmente testemunhar com segurança?”, diz a procuradora Nathalia Mariel.

 

Além das consequências jurídicas, a corrupção eleitoral causa um ciclo de degradação dos serviços públicos. O promotor Guilherme Franchi alerta que o voto vendido hoje reflete na falta de remédios, professores e merenda escolar amanhã.

Para especialistas, a conscientização do eleitor é fundamental para que o voto seja um instrumento de melhoria da qualidade de vida.

Para aqueles que aceitaram a troca, o sentimento que resta é o arrependimento. “Arrependimento até hoje é grande. No fim eu peguei, me incomodei e tô me incomodando por causa disso”, relatou um eleitor condenado em Santa Catarina. (G1)

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