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7 junho 2026

Médicos falsos lucram com fake news nas redes

O homem de meia-idade veste jaleco branco e fala com a calma de quem passou décadas estudando. Parece, mas não é um profissional da saúde. Nunca existiu. Com voz e imagem geradas por inteligência artificial, o médico falso fez sucesso no TikTok afirmando que suco de batata combate males como gastrite, azia e a H. pylori, bactéria que provoca úlceras.

“Esqueça a endoscopia. Você está assistindo ao vídeo certo. Essa é a melhor receita para todos esses problemas estomacais. É como um alívio mágico. Já toca no coraçãozinho e salva para não perder a receita”, diz o médico falso, que acumulou 2,2 milhões de visualizações, somente em uma postagem, até ser derrubado da rede.

Personagens fictícios como esse têm proliferado nas redes sociais, atraindo milhares de seguidores ao oferecer receitas caseiras de curas milagrosas, sem qualquer embasamento científico.

No YouTube, um senhor com traços orientais veste uma túnica e promete curar catarata com uma mistura de alho, limão e mel antes de dormir. “Recupera sua visão perfeita sem cirurgia”, afirma o robô. O vídeo ultrapassa 1,2 milhão de visualizações. No mundo real, só intervenção cirúrgica cura a doença.

“As farmácias nunca vão contar isso. Sabe por quê? Porque funciona e não querem perder clientes”, diz outro material, que promete curar a ansiedade com banana, maracujá e leite vegetal. Médicos que analisaram os vídeos a pedido da reportagem classificaram as informações como enganosas.

O avanço da inteligência artificial barateou os custos de produção desse tipo de conteúdo e democratizou o modelo de negócios dos seus criadores, diz Mario Aquino Alves, coordenador do Desinfo.Pop (Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas) da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Qualquer pessoa interessada em faturar com a monetização de suas publicações nas redes pode replicar o sistema. Os vídeos seguem o mesmo formato: usam fragmentos de informações verdadeiras para construir narrativas de apelo fácil e apresentar soluções sem respaldo científico.

O negócio não termina com a criação dos conteúdos falsos. TikTok, Instagram, Facebook e YouTube funcionam como vitrines, que atraem os usuários para grupos no Telegram, abertos ou só para assinantes, onde funciona o segundo estágio da operação: é lá que a audiência conquistada nas redes consome e compra os produtos anunciados.

A monetização ocorre em duas etapas. A primeira está relacionada ao alcance das visualizações. No TikTok, por exemplo, criadores podem ser remunerados se tiverem ao menos 10 mil seguidores e 100 mil visualizações em 30 dias, e se produzirem conteúdo original com mais de um minuto de duração. A segunda etapa é a venda direta de produtos. Além das receitas mágicas, itens como dióxido de cloro, zeólita e suplementos minerais são vendidos como remédios milagrosos.

Segundo o pesquisador da FGV, a criação desses personagens fictícios é novidade dentro de um mercado de desinformação já estruturado. Desde o ano passado, o Desinfo.Pop acompanha grupos conspiracionistas no Telegram que faturam vendendo curas milagrosas para diabetes, autismo e doenças combatidas com vacinas. Os vídeos ajudam assim a ampliar o alcance e o engajamento dos grupos, dizem os pesquisadores.

O grupo mediu o tamanho do problema na América Latina e no Caribe. Publicações sobre diabetes em grupos conspiracionistas acumularam 106 milhões de visualizações e 2,5 milhões de compartilhamentos entre 2016 e 2025. Mais de um terço delas circularam em comunidades dedicadas ao charlatanismo e uso de remédios fora da bula. Foram encontradas também 47 mil postagens sobre autismo no Telegram entre 2015 e 2025, que tiveram 99 milhões de visualizações e alcançaram 4,2 milhões de usuários.

A lógica dos criadores desses conteúdos e desses grupos, segundo os estudos, é transformar a desinformação em modelo de negócio, e o medo, em oportunidade de venda. Na opinião de Mario Aquino Alves, os alvos desses grupos são pessoas que desconfiam da ciência e têm suas convicções reforçadas pelos conteúdos produzidos. “É um sistema que se retroalimenta”, diz o pesquisador.

A reportagem pesquisou vídeos distribuídos no TikTok, no Facebook e no YouTube e identificou três formatos principais de conteúdo médico falso gerados por inteligência artificial.

O primeiro simula a voz e a imagem de humanos vestidos como médicos. O segundo envolve animações, com personagens caracterizados como médicos explicando doenças e indicando tratamentos. O terceiro também usa desenhos animados, mas para fazer órgãos do corpo humano ou ingredientes falarem diretamente com o usuário. Alguns perfis mesclam os três formatos para ampliar o alcance.

Só no TikTok, seis conteúdos de saúde encontrados pela reportagem somam mais de 14 milhões de visualizações. Um promete receitas de sucos desentupidores de artérias e acumulou 2,6 milhões de visualizações e mais de 60 mil compartilhamentos.

As páginas pesquisadas publicaram dezenas de vídeos mostrando médicos gerados por IA. Após ser questionado pela reportagem sobre os conteúdos, o TikTok tirou do ar alguns dos perfis apontados.

“Nossa política sobre desinformação em saúde proíbe conteúdos que possam causar danos significativos”, afirmou a empresa, em nota. Ela afirma que materiais capazes de criar “danos moderados” ficam inelegíveis ao feed “Para Você”, que faz sugestões baseadas no consumo de cada usuário.

O TikTok também afirmou que proíbe conteúdo gerado por IA que tenha teor enganoso, ou induza ao erro sobre assuntos de importância pública.

O YouTube disse que a IA é uma ferramenta como qualquer outra das usadas na produção de vídeos. “Nosso foco continua sendo conectar nossos usuários a conteúdos de alta qualidade, independentemente de como foram produzidos.” Afirmou ainda que o conteúdo deve estar em conformidade com as diretrizes da comunidade e que, caso não esteja, é retirado do ar.

A plataforma tem uma política semelhante à do TikTok quanto à desinformação sobre saúde.

O YouTube analisou um canal indicado pela reportagem (@ideias_dicas_receitas) e constatou que há vídeos fora das políticas de monetização. A página seguia no ar até a data de publicação deste texto. “O canal não está qualificado para monetizar e o criador não terá acesso às ferramentas e recursos de monetização”, afirmou a plataforma.

Tanto o TikTok quanto o YouTube exigem que os criadores divulguem quando o conteúdo foi gerado por IA.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) prepara uma resposta tecnológica para o problema. Uma plataforma de inteligência artificial, prevista para ser lançada em junho, vai vasculhar as redes em busca de perfis e conteúdos nocivos à saúde. De acordo com Jeancarlo Cavalcante, coordenador da comissão de inteligência artificial da autarquia, o volume de produção de conteúdos do tipo impossibilita a fiscalização manual.

A plataforma deve rastrear automaticamente invasões do ato médico, que ocorrem quando alguém sem habilitação executa e orienta procedimentos de competência exclusiva de médicos, e conteúdos prejudiciais à saúde. Na sequência, o material identificado será analisado por humanos. Caso sejam confirmadas as suspeitas, os casos serão distribuídos aos conselhos regionais de cada estado, responsáveis pelas providências cabíveis — incluindo denúncias ao Ministério Público e à polícia.

A Meta, responsável pelo Facebook e pelo Instagram, afirmou que proíbe desinformação prejudicial à saúde. Também diz que mantém uma rede de verificadores de fatos para lidar com o problema. “Quando os verificadores classificam um conteúdo como falso, reduzimos sua distribuição e aplicamos rótulos”, diz a empresa em nota. Os materiais mapeados pela reportagem e identificados como enganosos seguem no ar.

O Telegram foi procurado, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. O único contato oficial disponibilizado no site oficial da empresa é um robô da própria plataforma, que encaminha os questionamentos à sua equipe de imprensa. (Folhapress)

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