odo ano, no dia 8 de março, empresas publicam homenagens nas redes sociais, políticos gravam vídeos falando de “respeito às mulheres” e marcas distribuem flores como símbolo de reconhecimento. A estética da celebração costuma ser bonita, delicada e até emocionante. O problema é que ela convive com uma realidade brutal: no Brasil, uma mulher é assassinada a cada poucas horas simplesmente por ser mulher.
O Dia Internacional das Mulheres não nasceu como uma data para presentes, nem para campanhas publicitárias com frases inspiradoras. Ele nasceu de conflito social, de organização política e de luta por sobrevivência.
A origem da data remonta ao início do século XX, quando mulheres trabalhadoras passaram a se organizar contra jornadas exaustivas, salários miseráveis e condições degradantes de trabalho. Em 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, a ativista alemã Clara Zetkin propôs a criação de um dia internacional dedicado à luta das mulheres por direitos políticos, trabalhistas e igualdade.
Poucos anos depois, em 1917, mulheres russas foram às ruas exigindo “pão e paz”, protestando contra a fome e a guerra. A mobilização feminina desencadeou uma greve geral que ajudou a iniciar a Revolução Russa. O dia 8 de março acabou consolidado mundialmente como símbolo dessa insurgência feminina.
Ou seja, o 8 de março não nasceu de uma homenagem. Nasceu de uma rebelião.
Mais de um século depois, as mulheres conquistaram direitos fundamentais. O direito ao voto, o acesso à educação superior, a possibilidade de exercer profissões antes proibidas, leis de proteção contra violência doméstica e assédio. No Brasil, a Lei Maria da Penha se tornou uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento da violência doméstica.
Mas reconhecer as conquistas não pode nos impedir de olhar para a realidade.
E a realidade ainda é marcada por desigualdade estrutural.
As mulheres continuam ganhando menos que os homens, mesmo quando possuem maior escolaridade. Continuam assumindo a maior parte do trabalho doméstico e do cuidado com filhos, idosos e pessoas doentes. Continuam enfrentando barreiras invisíveis no mercado de trabalho e na política. Continuam sendo julgadas pela aparência, pela maternidade, pela sexualidade e pelo comportamento de uma forma que os homens raramente experimentam.
E continuam sendo violentadas.
O Brasil segue entre os países com maiores índices de feminicídio do mundo. Milhares de mulheres registram denúncias de violência doméstica todos os dias. Muitas delas vivem sob ameaça constante dentro da própria casa. Outras sequer conseguem denunciar.
A cada poucos minutos, uma mulher sofre violência física ou sexual no país.
Esses números revelam algo que muitas vezes tentam ocultar sob discursos de celebração: o problema não é individual. É estrutural.
A violência contra mulheres não é fruto de episódios isolados. Ela nasce de uma cultura que, historicamente, ensinou que mulheres devem obedecer, servir, cuidar e suportar. Uma cultura que naturaliza o controle sobre seus corpos, seus desejos e suas decisões.
Por isso, a luta das mulheres nunca foi apenas por direitos formais.
Ela é uma luta por transformação social.
Quando mulheres reivindicam igualdade salarial, não estão pedindo privilégios. Estão exigindo justiça. Quando denunciam violência, não estão destruindo famílias. Estão tentando sobreviver. Quando ocupam espaços de poder, não estão “invadindo” territórios masculinos. Estão reivindicando um lugar que sempre lhes foi negado.
O que muitas vezes se apresenta como resistência às pautas feministas é, na verdade, resistência à perda de privilégios históricos.
É por isso que o Dia Internacional das Mulheres ainda incomoda tanta gente.
Porque ele não é apenas uma data comemorativa. É um lembrete permanente de que a igualdade prometida ainda não chegou.
Não chegou quando meninas ainda são vítimas de abuso dentro da própria família.
Não chegou quando mulheres são desacreditadas ao denunciar estupro.
Não chegou quando uma mulher precisa provar, reiteradamente, que é competente para ocupar um cargo que seria naturalmente atribuído a um homem.
Não chegou quando mulheres são mortas por parceiros que acreditam ter direito sobre suas vidas.
O 8 de março existe justamente porque essa luta continua.
Ele existe para lembrar que os direitos das mulheres nunca foram concedidos espontaneamente. Eles foram conquistados com mobilização, resistência e coragem.
Foram conquistados por mulheres que enfrentaram prisões, perseguições e violência para abrir caminhos para as próximas gerações.
Celebrar essa data, portanto, não pode significar esvaziá-la.
Não precisamos de discursos vazios sobre “força feminina” enquanto políticas públicas são desmontadas. Não precisamos de campanhas de marketing que exaltam mulheres enquanto estruturas que produzem desigualdade permanecem intactas.
Precisamos de compromisso real com a vida das mulheres.
Precisamos de creches para que mães não sejam expulsas do mercado de trabalho. Precisamos de delegacias especializadas funcionando com estrutura adequada. Precisamos de educação que enfrente o machismo desde cedo. Precisamos de justiça que leve a sério a violência de gênero.
E, sobretudo, precisamos de uma sociedade que pare de tratar a morte de mulheres como estatística inevitável.
Por isso, neste 8 de março, a mensagem precisa ser clara.
Não queremos apenas homenagens.
Não queremos apenas flores.
Queremos mulheres vivas.
Queremos meninas crescendo sem medo.
Queremos mulheres trabalhando, estudando, amando e ocupando o mundo com liberdade.
Se quiserem nos dar flores, podem dar.
Mas não no nosso caixão.






