O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, uma investigação sobre a relação entre o Banco Master e o Instituto Iter, fundado pelo ministro André Mendonça. O pedido ocorre após a divulgação de informações sobre um encontro entre Mendonça e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Mendonça confirmou em 2 de setembro que recebeu Vorcaro em março de 2025 no Instituto Iter, na região da Avenida Paulista, em São Paulo. O encontro ocorreu às 17h de 14 de março e durou entre 20 e 30 minutos, segundo o ministro.
O advogado Ciro Rocha Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) articularam a reunião. Vorcaro comandava o Banco Master à época do encontro.
Mendonça afirmou ao Estadão que não conversou sobre o Banco Master com Vorcaro. Em nota, seu gabinete disse que os dois trataram da Suspensão de Tutela Provisória 976, processo sobre o pagamento de precatórios ligados a prejuízos adquiridos da Agroindustrial Tabu, usina do setor sucroalcooleiro.

Áudio indica que encontro poderia tratar do Banco Master
Um áudio localizado no celular de Vorcaro indica que os envolvidos esperavam abordar a situação do Banco Master. A mensagem foi enviada por Ciro Rocha Soares ao então banqueiro em 8 de fevereiro.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. (…) Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia, que o Cezinha já tinha falado com ele”, disse Soares no áudio divulgado inicialmente pela newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn.
Após a divulgação do conteúdo, Mendonça afirmou, em nota, que “se limitou a ouvi-lo”. O ministro não detalhou na manifestação o conteúdo da conversa com Vorcaro.
Fundado em novembro de 2023, o Instituto Iter oferece cursos de educação executiva, formação de lideranças e capacitação profissional para os setores público e privado. Em pregação publicada no Instagram em fevereiro, Mendonça disse que destinaria 10% de eventuais lucros e resultados de sua participação no instituto ao dízimo e os outros 90% a obras sociais e educação.
A decisão de Flávio Dino
Na decisão, Dino afirma que a sequência de fatos apresenta, em tese, um “quadro indiciário suficientemente relevante” para que eventuais conexões sejam esclarecidas. Leia na íntegra aqui.
Entre os pontos destacados estão um encontro entre Mendonça e Vorcaro na véspera de um pedido de vista apresentado pelo ministro em julgamento sobre a concessão de cemitérios em São Paulo, o voto posteriormente proferido por ele no processo, a atuação de seu irmão na agência reguladora municipal do setor e contratos firmados pelo Instituto Iter com órgãos públicos paulistas.
“Realejo: em entrevista publicada no dia 2 de setembro de 2026, o próprio ministro André Mendonça confirma que recebeu Daniel Vorcaro — na véspera do multicitado julgamento no STF — exatamente a pedido de membros da igreja Batista Lagoinha, tendo agido como intermediário o Deputado Cezinha Madureira”, escreveu Dino.
Segundo a decisão, havia “elevados interesses de fundos geridos pelo Banco Master exatamente em temas atinentes à privatização de cemitérios”.
Dino faz, no entanto, uma ressalva expressa: os fatos narrados não significam que tenha havido interferência externa na atuação jurisdicional de Mendonça, mas apenas que a apuração é necessária.
“Enfatizo que não cabe, neste momento e nesta sede, antecipar juízo de responsabilidade penal ou por improbidade administrativa”, destacou. A qualificação jurídica definitiva, segundo ele, “pressupõe investigação própria e a demonstração dos elementos objetivos e subjetivos exigidos pelos respectivos tipos legais”.





