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2 fevereiro 2026

Jards Macalé, a música como gesto radical de liberdade

Por Ismael Machado – A morte de Jards Macalé, ocorrida na última segunda-feira, 17, encerra uma das trajetórias mais singulares e indomáveis da música brasileira. Poucos artistas atravessaram tantas eras, estilos e rupturas mantendo, de maneira tão rigorosa, a coerência com um princípio que ele levava como cicatriz e bandeira: a arte não existe para servir a nada além dela mesma e, portanto, não deve se curvar a nenhum poder, seja ele político, comportamental ou mercadológico.
Para entender o que Macalé representou, é preciso ir além do rótulo fácil de “maldito”, expressão que ele mesmo rejeitou. Macalé nunca foi maldito, apenas coerente e lúcido. Sua lucidez, porém, era tão cortante que causava atritos e ruídos. Incomodava gravadoras, incomodava programas de televisão, incomodava movimentos estéticos que tentavam englobá-lo, incomodava até os amigos, que o amavam justamente porque sabiam que ele não abria concessões. Macalé não pertencia a lugar nenhum porque escolheu pertencer apenas ao território da criação que, por si só, já é um território feroz, áspero, mas onde a beleza aparece com mais verdade.
Nascido em 1943, no Rio de Janeiro, ele cresceu respirando samba, chorinho, rádio e o universo popular da Lapa. Mas cedo também se aproximou da música contemporânea, do jazz e das vanguardas europeias, trilhando um caminho que poucos, naquele período, ousavam cruzar. Assim se formou um artista totalmente imprevisível. Era um violonista preciso, com uma batida ‘suja’, um cantor visceral com sua rouquidão desafiadora a ouvidos domesticados, um compositor que sabia transitar da harmonia sofisticada à melodia simples, da delicadeza extrema à dissonância inquietante.
Se aproximou da Tropicália, mas nunca foi tropicalista. Colaborou intensamente com Waly Salomão e Torquato Neto, mas tampouco cabia na moldura marginal. Vivia entre rodas de samba e concertos de música experimental, entre festivais de canção e o underground carioca. Era ponte e abismo ao mesmo tempo. Atravessava linguagens sem jamais adoçar sua própria.
De sua obra, ficaram canções que hoje pertencem ao patrimônio afetivo do país — “Vapor Barato”, “Movimento dos Barcos”, “Let’s Play That”, “Mal Secreto”, “Farinha do Mesmo Saco”, “Hotel das Estrelas”, “Soluços”, “Sem Essa”. Mas o que marca sua presença não é apenas a excelência das composições. É o modo como cantava, um jeito de cantar como quem convoca — não interpreta — um espírito. Macalé não executava uma canção. Ele parecia que a vivia, a sangrava, a rasgava pelo avesso até encontrar a verdade escondida nela.
Ao longo dos anos 1970, suas tensões com a indústria cultural tornaram-se lendárias. O afastamento da Rede Globo, depois de conflitos sobre autonomia artística e direção musical, virou símbolo de sua postura. Macalé não negociava sua integridade. E pagou caro por isso. Isolou-se, perdeu espaço de mercado, foi incompreendido. Chegou a pensar em suicídio, mas contava ter sido salvo por João Gilberto. Sua influência subterrânea nunca diminuiu. Pelo contrário, cresceu com o tempo, alimentando gerações inteiras que encontraram nele um farol da desobediência estética. Foi saudado ainda em vida, é bom dizer.
Nos anos 2000 e 2010, jovens músicos redescobriram Macalé com fascínio: de Metá Metá a Ava Rocha, de Kiko Dinucci a Juçara Marçal, de Tim Bernardes a Rômulo Froes, passando por toda a cena independente que vê na fricção e no risco um modo de existir. O reencontro com o público mais jovem mostrou que sua obra não envelheceu. Ela apenas esperou o mundo ficar novamente capaz de ouvi-la.
Macalé foi, ao fim, um artista do confronto. Com o establishment, com os movimentos, com os ouvintes, consigo mesmo. Mas desse confronto nasceu uma das obras mais pungentes e livres do país. Sua morte deixa um silêncio enorme, desses que não se preenchem, poucos dias depois da morte de outro ser essencial, Lô Borges. Há uma geração indo embora. Gal, Rita Lee, Erasmo, Nana, Lô, Hermeto, entre tantos. Mas sua vida deixa algo ainda maior. A lição de que a insistência de ser a música um território de liberdade absoluta. E que a verdadeira ousadia não está no gesto ruidoso, e sim na fidelidade inquebrantável ao próprio caminho.
Jards Macalé parte, mas deixa um legado que não se encerra. Permanece como essa ferida luminosa aberta na história da MPB, lembrando que a arte é mais profunda quando se recusa a ser domesticada.

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