30 C
Porto Velho
1 fevereiro 2026

A volta do Oasis e o tempo que passou por nós

Por Ismael Machado – Acordei com rouquidão na voz, as pernas pedindo arrego, um cansaço quase extremo. E feliz. Tem uma camiseta que sempre via por aí que me fazia ter certas reações negativas. No pain, no gain. Acho que era isso. Sem dor, sem recompensa. Nunca adotei essa filosofia do sofrimento. Mas nesta manhã, enquanto tomávamos o café num hotel relativamente simples no bairro paulistano de Santa Cecília, pensei um pouco nisso. Nesse estágio físico quase destruído, mas completamente recheado de uma alegria por ainda poder viver determinados momentos como o de sábado à noite. Um show de rock de uma banda gigante. Sim, o Oasis é gigante, queiram ou não os detratores.


Ao longo do dia, horas antes do show, eu repetia uma historinha de quando eu ainda trabalhava no jornal O Liberal, de não tão boa memória. Conversávamos eu e dois amigos músicos de bandas. Um deles já não é amigo (foi um livramento, admito) e outro permanece até hoje como um parceiro criativo. O ano era 1999 e falávamos sobre rock, só pra variar. E eu disse uma frase que arrancou risos de meus interlocutores. Afirmava eu, naquela distante manhã calorenta, que o Oasis seria lembrado dali a vinte, trinta anos, como uma das grandes bandas da história. Os dois riram e tiraram sarro. O tempo passou e eu fui profético. Duvido que os dois lembrem desse episódio. Mas ele existiu.
E noite passada, ali estava eu, ao lado de meus dois filhos, de minha companheira e da atualmente ex-companheira de meu filho mais velho, no estádio Morumbis, junto a outras quase 70 mil pessoas para assistir ao Oasis. Olhava ao redor, antes do show começar e percebia a variedade etária do público. De adolescentes a ‘tiozões’ como eu. Muita gente ansiosa, emocionada e à espera de um encontro ou um reencontro. Encontro com o presente. Reencontro com o passado.
De quantas canções precisamos para fazer esses encontros e reencontros? De quantas músicas necessitamos para reconciliações, perdões, reafirmação de sentimentos, autoafirmação de nossos sonhos e desejos mais profundos? Talvez uma, ou talvez um setlist inteiro que nos lembre de toda uma trajetória de pelo menos três décadas.
Tudo se conecta. Quando o Oasis lançou seu primeiro disco, Renato Russo, sim, aquele, amado e odiado, o elogiou numa entrevista para a Bizz, sim, aquela, amada e questionada revista. Eu ficava atento a muita coisa que o vocalista da Legião Urbana falava e fui atrás do disco. Assim que pude, comprei. Era CD. Gostei. E só.
Mas um tempo depois, quando foi lançado o segundo disco, What’s history, morning glory’, ali por 1995, eu e Marcos Souza, um amigo de então, que trabalhava comigo na redação de um jornal rondoniense, o Alto Madeira, ficamos muito impressionados com aquele disco. Ele ainda é meu preferido. Na verdade, nesses dois primeiros discos, o Oasis se fez para mim como banda relevante, com o que tinha para dizer. Certo, diria mais ao longo dos anos, mas ali estava tudo. A arrogância juvenil com sede de conquistar o mundo, os riffs barulhentos de guitarra no talo, overdubs ressoando nos ouvidos com a clara intenção de nos lembrar que ali estava uma banda de rock disposta a te puxar e te empurrar e te sacudir até te tirar da letargia. E sim, ali estavam aquelas canções que não pediriam licença ao tempo e permaneceriam indeléveis dali por diante.
Sim, todos percebiam os generosos ‘empréstimos’ de bandas como Beatles, Rolling Stones, glam rock, hard rock…mas é até cinismo acusar aqueles rapazes se até os gigantes fizeram a mesma coisa (sim, estou falando de Beatles, Led Zeppelin, Beach Boys, Stones etc etc e etc). O rock and roll sempre foi uma pilhagem de piratas invadindo novas praias e trazendo os tesouros de ilhas pouco conhecidas.
Mas o fato é que, como os grandes sempre fizeram, o Oasis suplantou a mera influência pilhada das prateleiras do supermercado rock and roll. Eles inseriram um molho peculiar, alinhavaram especiarias próprias e nos entregaram punhados e punhados de canções especiais, daquelas que se costumam dizer ‘matadoras’, ‘clássicos’, ‘hinos’ ou o que a sua criatividade linguística quiser apontar.
Elas estavam quase todas ali na noite de 22 de novembro de 2025, assim como já estiveram em outras noites durante esse ano, quando a turnê de reencontro da banda com os fãs começou a rodar o mundo. Noites e noites de espaços lotados e um público que misturava gente que nem havia nascido quando o Oasis surgiu a aqueles que os tiveram como trilha sonora da juventude.
O Oasis de hoje, com cabelos grisalhos em membros da banda, é a somatória de experiências que todos – ou quase todos- de nós vivenciamos. O amor e ódio entre irmãos que embalou um relacionamento tóxico é o mesmo que muitos de nós já passamos. A criatividade que eles despejaram em seus trabalhos durante o próprio período de crescimento, é similar a que nós já entregamos em empregos mal pagos, lutando para sobreviver na mistura imperfeita de nossos sonhos de futuro melhor e uma realidade nos puxando para baixo, tentando nos afogar em uma água turva de decepções- amorosas, políticas, sociais, sexuais, comportamentais, profissionais-.
É por isso que a volta do Oasis aos palcos, depois de anos de separação e do desgaste público entre os irmãos Gallagher, não é apenas um evento musical. Ela acaba por ser um rito geracional. Há algo profundamente simbólico no reencontro de uma banda que definiu a sensibilidade de milhões de jovens dos anos 1990 e início dos 2000 com um público que agora retorna, mais velho, mais experimentado, mais ferido pela vida e ainda assim disposto a cantar em coro letras que moldaram sua noção de mundo, de sonho e de desencanto.
Para quem cresceu com Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory?, havia naquelas músicas uma promessa de vitalidade inesgotável. “Live Forever”, por exemplo, sintetizava a sensação de invulnerabilidade juvenil. Era um grito contra o cinismo, um desejo de permanência num mundo que parecia ao mesmo tempo caótico e cheio de possibilidades. Já “Supersonic” apostava na urgência da juventude, herança herdada do punk: fazer agora, ser agora, existir agora. O Oasis sempre cantou a juventude como promessa e como ilusão. Seus primeiros sucessos, carregados do otimismo britpop e da arrogância elétrica dos Gallagher, eram quase um manifesto da geração dos anos 90: viver rápido, sentir tudo, acreditar que o amanhã seria dessa juventude. Era a voz de quem achava que tinha descoberto o mundo, sem perceber que o mundo ainda ia descobrir muita coisa sobre essa geração.
Essa geração, hoje com 30, 40 ou 50 anos, olha para essas músicas com outra lente, pois o “viver para sempre” dos anos 90 encontrou a realidade do trabalho, das responsabilidades, da passagem do tempo. E, no entanto, a utopia pessoal daquela época não se perdeu; ela se transformou em memória afetiva, em combustível para seguir adiante, em saudade de uma energia que ainda pulsa, mesmo que de outro jeito.
Oasis sempre cantou, mesmo quando eufórico, um certo desencanto e isso envelhece bem. “Don’t Look Back in Anger”, que se tornou hino quase institucional de resiliência, fala também de deixar para trás o que pesa, o que dói, e de aceitar que o passado não pode ser modificado. Para uma geração que passou por crises econômicas, perdas, frustrações e transições pessoais, a música se tornou uma espécie de mantra maduro. Há dor, mas também há superação. Durante anos, essa foi vista como uma canção de consolo, quase um hino de estádio. Agora, para um público mais velho, ela se torna um pacto íntimo com o próprio passado. Não olhar para trás com raiva significa aceitar falhas, escolhas mal feitas, sonhos que morreram no caminho, mas também significa entender que a vida só avança quando deixamos de brigar com o que já não existe.
“Champagne Supernova”, com seu clima onírico e melancólico, talvez seja a que melhor traduz o sentimento de se ver adulto olhando para o turbilhão da vida. “Where were you while we were getting high?” ganha novas leituras quando o “high” já foi substituído por boletos, filhos, carreiras e responsabilidades. É uma constatação amarga e bela da vida adulta. Todos mudam. Amigos mudam. Amores mudam. Nós mesmos mudamos. E mesmo assim, algo permanece e talvez seja a memória de como nos sentimos quando éramos jovens o suficiente para não saber que tudo isso ia acontecer.
A volta da banda coincide com um movimento afetivo de massa. Pessoas que se conheceram adolescentes, que viveram amores ao som de “Wonderwall”, que choraram ouvindo “Stop Crying Your Heart Out”, agora voltam aos estádios como quem revisita um quarto antigo. O reencontro é também um autoencontro.
O público do Oasis envelheceu, e os irmãos Gallagher também. A rebeldia britânica dos anos 90, aquela mistura de arrogância, humor ácido e confiança juvenil, foi substituída por um tipo de maturidade que admite falhas, quedas e reconciliações. O retorno da banda ecoa esse percurso. Não é mais sobre ser a maior banda do mundo, mas sobre reconhecer o que essas músicas significam para quem foi atravessado por elas. Mas há uma novidade que contradiz a afirmação que inicia esse parágrafo. O público também se renovou e atravessou gerações. Só grandes bandas alcançam isso, precisamos admitir.
Lotar estádios em 2025 não é apenas nostalgia. É uma reafirmação de identidade. Há algo comunitário nesse gesto, pois cantar junto é recuperar uma força compartilhada, uma espécie de pacto geracional. Essa geração que amadureceu, muitas vezes sem perceber, encontra no Oasis algo que permaneceu firme enquanto tudo mudava. A volta do Oasis, depois de anos de silêncio, brigas públicas e carreiras solo separadas, é um desses acontecimentos que ultrapassam a música. Não é apenas a reunião de uma banda. É a reativação de uma memória coletiva. Quando milhares de pessoas lotam estádios em 2025, não estão apenas assistindo a Noel e Liam Gallagher no palco. Elas possivelmente estão reencontrando versões antigas de si mesmas, adolescentes que ouviram no já distante CD e hoje são adultos que reconhecem as próprias cicatrizes nas canções que pareciam apenas hinos de uma juventude invencível.
O que explica os estádios lotados hoje? É uma pergunta cabível. É a reconciliação entre passado e presente. É gente que amadureceu tentando não perder o brilho nos olhos. É a redescoberta de que certas músicas não morrem, porque são feitas de sentimentos que resistem ao tempo, como vulnerabilidade, saudade, raiva, esperança. O Oasis expressava tudo isso com guitarras estrondosas, simplicidade melódica e uma arrogância que só a juventude permite. E quem era jovem quando ouviu essas canções pela primeira vez sabe muito bem que aquela arrogância tinha algo de proteção, de defesa contra os medos que só mais tarde se aprenderia a nomear.
Cada refrão, cada acorde, funciona como um espelho. A juventude não volta, mas a memória dela ainda é capaz de gerar movimento, energia, alegria e dor. Oasis, agora, é uma celebração da experiência, não mais da promessa.
Durante quase duas horas, vi meus filhos cantando, dançando, pulando, sabendo as letras de cor. Eu os olhei comovido. Eu os abracei e fui abraçado por eles. Foi um momento planejado, sonhado e realizado a partir de meu filho mais novo, que lutou por isso. E sim, quando a emoção bateu de forma mais intensa, eu simplesmente sentei e deixei as lágrimas caírem. Como agora, no silêncio desse quarto de hotel.

Ismael Machado

IsmaelAutor

Ismael Machado é jornalista, roteirista e cineasta. Já trabalhou como correspondente dos jornais ‘O Globo’ e ‘Jornal do Brasil’ na região Norte e como colaborador da Folha de São Paulo. Foi repórter especial do jornal Diário do Pará. É autor dos livros ‘Golpe, Contragolpes e Guerrilhas: O Pará e a ditadura militar’ (2014), vencedor do Prêmio IAP de Literatura 2013, na categoria Livro-Reportagem e a biografia ‘Paulo Fonteles-Sem Ponto Final’. Já obteve doze prêmios em jornalismo, inclusive duas vezes os prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em Jornalismo. Fez roteiro e direção do curta Amador, Zélia, vencedor do Edital Lei Aldir Blanc 2021. Fez roteiro, produção executiva e direção do documentário ‘Na Fronteira do Fim do Mundo’, pela produtora Floresta Urbana (PA), 2021 (Seleção oficial ‘Montreal Independent Film Festival’ 2022). Roteirista e diretor do longa de ficção ‘Flashdance TF’, selecionado no edital Novos Realizadores 2022. Autor de oito livros publicados.

VÍDEOS: Estudante de Cacoal representará Rondônia em seletiva nacional de atletismo

Luan Vitor Scharff Barbosa, de 16 anos, será o...

Cobra cascavel é encontrada perto de casas e assusta moradores de bairro em Rondônia

Uma cobra cascavel de mais de um metro de...

Bandido leva 30 segundos para matar ciclista à luz do dia e diz que crime foi a ‘mando do diabo’

Imagens feitas por câmeras de segurança ajudaram a Polícia...

Empregos com carteira assinada crescem 106% em Ariquemes no 1º trimestre

Ariquemes registrou um crescimento de 106% nas contratações com...

Mulher é baleada dentro de carro e diz não saber de onde saiu o tiro

Uma mulher de 31 anos, Eliane P.S., 31 anos,...

Pedófilo elogiou Bolsonaro em email: “the real deal”

Uma troca de e-mails atribuída a Jeffrey Epstein e...

Áudios inéditos sobre crianças revela falas de Michael Jackson

Gravações de áudio até então inéditas revelam reflexões de...

Câmeras registram assalto violento a posto em RO

Um assalto violento foi registrado na madrugada do dia...

Influenciador é preso em flagrante em Rondônia

A Polícia Militar de Rondônia prendeu o influenciador João...

Domingo nublado e com pancadas de chuva em RO

O domingo (1) será de tempo instável em grande...

Rondoniense viraliza ao cantar em praia do Rio

Cantando de forma espontânea a música When I Was...

Nova 364: acidente deixa duas vítimas fatais em RO

Duas pessoas morreram em um grave acidente na manhã...

Ex-presidiário e dono de site lidera campanha contra o STF

O site de notícias Metrópoles é o veículo da...