Golpe do falso advogado cresce em Rondônia e reforça importância da informação e da atuação da OAB
Criminosos usam dados reais de processos, nomes, fotos e até voz de advogados para enganar vítimas; em Vilhena, OAB e Faculdade Santo André ampliam ações de orientação à população
O golpe do falso advogado deixou de ser uma fraude isolada e passou a representar uma preocupação cada vez maior para clientes, profissionais da advocacia e para as próprias instituições que atuam na defesa dos direitos da população. Em Rondônia, a quantidade de denúncias e registros relacionados a estelionatos revela a dimensão do problema e reforça a importância da informação como ferramenta de prevenção.
Dados da Polícia Civil de Rondônia apontam que 59.902 ocorrências de estelionato foram registradas no estado entre 2023 e 2025. Foram 15.600 registros em 2023, 21.158 em 2024 e 23.144 em 2025. No mesmo período, os golpes classificados como praticados em ambiente virtual passaram de 4.355 para 7.824 ocorrências, um crescimento de 79,6%.
Dentro desse cenário, o chamado golpe do falso advogado ganhou atenção especial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Segundo a OAB-RO, até agosto de 2025 haviam sido recebidas 406 representações relacionadas a esse tipo de fraude. A entidade passou a orientar as vítimas a registrar boletim de ocorrência e formalizar representação criminal junto à Polícia Civil.
Como funciona o golpe
A fraude normalmente começa com o criminoso obtendo informações verdadeiras sobre um processo judicial. Com nomes das partes, número do processo, decisões, valores e outros dados, ele cria uma aparência de legitimidade.
Em seguida, entra em contato com a vítima, geralmente pelo WhatsApp, utilizando o nome, a fotografia e até a identidade visual de um advogado ou escritório verdadeiro.
Em alguns casos, os criminosos alegam que o processo foi ganho e que determinado valor está disponível para recebimento. Para liberar o dinheiro, entretanto, pedem o pagamento de uma suposta taxa, custas, honorários ou outra cobrança, geralmente por Pix.
A própria OAB Nacional alerta que os golpistas podem utilizar informações extraídas de processos judiciais e até recursos tecnológicos para tornar a abordagem mais convincente. A entidade criou, inclusive, a plataforma ConfirmADV, que permite verificar a identidade e os contatos profissionais de advogados.
A OAB-RO também já alertou para casos em que criminosos utilizam inteligência artificial para simular a voz de advogados, ampliando a capacidade de convencimento das vítimas.
Vilhena se torna ponto de alerta
No Cone Sul de Rondônia, a OAB Subseção de Vilhena tem ampliado a orientação à população sobre esse tipo de fraude. A presidente da subseção, Renilda Oliveira Ferreira, tem utilizado entrevistas, eventos e ações institucionais para chamar a atenção da comunidade para os riscos do golpe.
A preocupação encontra respaldo nos números estaduais. Entre os municípios de Rondônia, Porto Velho concentra 36,8% dos registros de estelionato entre 2023 e 2025. No interior, aparecem Ji-Paraná, com 8,4%; Vilhena, com 7,6%; Ariquemes, com 7%; e Cacoal, com 6,7%.
Em maio de 2026, a OAB Vilhena voltou a alertar publicamente sobre o aumento das tentativas do golpe na cidade. Na ocasião, Renilda Ferreira demonstrou preocupação com a frequência das abordagens e profissionais ouvidos pela imprensa relataram tentativas contra clientes.
A atuação da subseção mostra uma mudança importante na relação entre a advocacia e a sociedade: além de defender as prerrogativas profissionais, a Ordem também passa a ocupar um espaço cada vez mais próximo do cidadão na orientação sobre direitos, prevenção de fraudes e segurança jurídica.
Faculdade Santo André aproxima informação da comunidade
Esse trabalho de orientação também tem encontrado espaço na formação acadêmica. Em Vilhena, acadêmicos do curso de Direito da Faculdade Santo André (FASA) vêm participando de atendimentos e ações voltadas à orientação da população, inclusive com informações relacionadas ao golpe do falso advogado.
A proposta, conforme as informações repassadas pela instituição, é levar ao cidadão conhecimento jurídico básico e orientações para que ele possa reconhecer situações de risco e buscar os canais adequados antes de realizar qualquer pagamento.
Para o acadêmico de Direito Eraldo Moraes, o golpe representa uma fraude em que criminosos se passam por advogados, advogadas ou integrantes de escritórios para enganar pessoas que possuem processos judiciais em andamento.
Segundo ele, os estelionatários podem aproveitar informações que constam em processos públicos para ganhar a confiança das vítimas.
“A presença da advocacia por meio da OAB é fundamental para se garantir segurança a todos os rondonienses”, destaca o acadêmico.
Eraldo explica que, depois de conquistar a confiança da vítima, o criminoso normalmente apresenta uma situação urgente e solicita uma transferência via Pix para supostamente liberar valores do processo.
O problema é que, embora os dados apresentados possam ser verdadeiros, o contato não é feito pelo advogado responsável pelo processo.
Quando a informação vira proteção
A atuação conjunta entre instituições da área jurídica e a imprensa tem papel importante nesse cenário. Quanto mais conhecida for a dinâmica do golpe, maiores são as possibilidades de a vítima desconfiar antes de transferir dinheiro.
A OAB orienta que qualquer pessoa que receba uma mensagem inesperada de um suposto advogado deve evitar pagamentos imediatos e confirmar a identidade do profissional por um canal já conhecido.
A entidade recomenda ainda a utilização do ConfirmADV para verificar os dados profissionais do advogado. Em caso de golpe, a orientação é preservar conversas, números de telefone, comprovantes, chaves Pix e documentos enviados pelos criminosos, além de registrar ocorrência policial.
Outra orientação é entrar em contato diretamente com o advogado responsável pelo processo, utilizando o telefone que já consta no contrato ou em documentos anteriores, e não o número fornecido pelo suposto profissional na mensagem.
Atendimento jurídico e orientação à população
Além das ações de conscientização, a Faculdade Santo André mantém atendimento jurídico voltado ao público que se enquadra nos critérios estabelecidos pela instituição. O serviço oferece orientação gratuita, com suporte nas áreas de Direito Civil, Família, Consumidor, entre outros segmentos.
A proposta é permitir que pessoas que não possuem condições financeiras para contratar um advogado possam receber orientação e compreender quais caminhos jurídicos podem ser adotados em determinadas situações.
Nesse contexto, a aproximação entre academia, advocacia e sociedade contribui para ampliar o acesso à informação e fortalecer a prevenção.
O golpe do falso advogado mostra que a segurança jurídica não depende apenas dos tribunais ou dos escritórios. Ela também passa pela capacidade do cidadão de reconhecer uma tentativa de fraude, confirmar uma informação e saber onde buscar ajuda.
O papel da OAB
A OAB tem ampliado sua atuação no combate ao golpe em Rondônia. Em 2025, a Seccional informou ter recebido centenas de representações e passou a orientar que as vítimas também formalizem os casos junto à Polícia Civil.
A entidade também vem adotando medidas institucionais para enfrentar o problema. Em dezembro de 2025, a OAB-RO informou ter ingressado com uma ação civil pública contra operadoras de telefonia e a Meta, alegando falhas que, segundo a entidade, contribuem para a proliferação do golpe.
Em âmbito nacional, a OAB lançou uma campanha específica contra o falso advogado e disponibilizou o ConfirmADV como ferramenta de verificação.
Em Vilhena, a presença da Ordem na comunidade, por meio de ações, entrevistas e orientações, reforça uma frente de atuação que vai além da representação da classe: informar o cidadão também é uma forma de defender direitos.
O trabalho desenvolvido pela OAB Vilhena, somado às iniciativas de orientação jurídica realizadas pela Faculdade Santo André e à divulgação pela imprensa, ajuda a levar informação para quem muitas vezes só percebe o golpe depois de perder dinheiro.
E, nesse tipo de crime, informação pode ser a primeira barreira entre o cidadão e o prejuízo






