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Porto Velho
6 novembro 2026

Ex-presidente do Paraguai é preso por fraude bancária

O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña foi preso na noite desta sexta-feira (6), poucas horas depois de ser destituído pelo Senado em um processo de impeachment relacionado ao escândalo financeiro do Ueno Bank. Agentes da Polícia Nacional compareceram à residência do ex-mandatário, em Assunção, para cumprir a ordem de detenção expedida pelo Ministério Público. Peña permanecerá inicialmente sob custódia no próprio imóvel, de acordo com a Polícia paraguaia.

A prisão ocorreu enquanto o então vice-presidente Pedro Alliana, também do Partido Colorado, tomava posse como novo chefe de Estado. O sucessor deverá completar o mandato presidencial até agosto de 2028. Peña, que assumiu o governo em 2023, perdeu o cargo após uma votação unânime dos 44 senadores presentes. O impeachment foi aprovado sob a acusação de mau desempenho de suas funções diante das irregularidades associadas ao banco.

A ordem de detenção foi expedida em uma investigação criminal distinta do julgamento político. Conforme a Associated Press, o Ministério Público determinou que Peña fosse mantido inicialmente em sua residência até ser apresentado à unidade especializada em crimes econômicos e corrupção. Os investigadores apuram suspeitas de lesão de confiança, crime relacionado à administração indevida de patrimônio. A ordem também alcança Carlos Carvallo, ex-presidente do Banco Central do Paraguai (BCP). A destituição pelo Senado não representa uma condenação criminal.

A queda do presidente foi precedida por uma tentativa frustrada de renúncia, apresentada na quinta-feira (5). A sessão conjunta do Congresso responsável por analisar a saída foi interrompida por falta de quórum, depois que deputados governistas deixaram o plenário. A oposição insistiu no impeachment porque uma renúncia aceita poderia permitir a Peña ocupar uma cadeira vitalícia no Senado, acompanhada de imunidade parlamentar. A destituição retirou essa possibilidade.

 

Na manhã desta sexta-feira, Peña solicitou mais 72 horas para preparar sua defesa. O pedido foi rejeitado por 39 senadores, contra três votos favoráveis e duas abstenções. O então presidente não compareceu pessoalmente à sessão, e seus advogados, Ricardo Preda e Adolfo Ferreiro, chegaram depois do prazo inicialmente estabelecido para a apresentação da defesa. O Senado prosseguiu com as etapas finais do julgamento e decidiu removê-lo do cargo.

O escândalo começou a se agravar na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai iniciou o processo de resolução do Ueno Bank após identificar graves problemas de solvência. Segundo a autoridade monetária, o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido. A deterioração estava relacionada a ajustes contábeis e empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio grupo empresarial. O fechamento afetou aproximadamente 2,9 milhões de clientes, em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes.

O Ueno concentrava mais de US$ 800 milhões em depósitos de entidades públicas, incluindo recursos previdenciários. De acordo com a Associated Press, os parlamentares acusaram Peña de favorecer a transferência de dinheiro estatal para a instituição, além de permitir que o Instituto de Previdência Social mantivesse aproximadamente US$ 355 milhões no banco, em operações apontadas como superiores aos limites legais. As suspeitas incluem conflito de interesses, favorecimento financeiro e falhas de fiscalização.

A relação pessoal e empresarial de Peña com o grupo proprietário do Ueno também está no centro das investigações. O ex-presidente manteve participação em uma empresa ligada ao Grupo Vázquez até março de 2025, embora não diretamente no banco. Durante seu governo, a instituição registrou uma expansão acelerada, impulsionada por depósitos públicos. Peña também nomeou para a presidência do Banco Central Carlos Carvallo, que anteriormente havia trabalhado em uma empresa do grupo financeiro.

O empresário Miguel Vázquez, fundador do Ueno e chamado de “Vorcaro paraguaio”, já havia sido detido no início da semana. As investigações alcançam dezenas de pessoas ligadas ao banco e às empresas que teriam recebido empréstimos irregulares. Segundo a imprensa paraguaia, autoridades apreenderam veículos de luxo, um iate e uma aeronave associados ao empresário. Vázquez e outros ex-diretores foram submetidos à prisão preventiva.

Foto: Cesar Olmedo/Reuters

O fechamento do banco provocou bloqueios de contas, interrupção de operações financeiras e dificuldades para milhões de clientes movimentarem suas economias. O Banco Central começou a liberar pagamentos a pequenos depositantes, enquanto o fundo de garantia cobre valores de até aproximadamente US$ 37 mil por pessoa. A crise também alcançou trabalhadores e aposentados cujos recursos estavam vinculados à instituição.

Nos últimos dias, milhares de manifestantes ocuparam as ruas de Assunção para exigir a devolução dos depósitos e a responsabilização dos envolvidos. Houve confrontos com a polícia, utilização de equipamentos de controle de multidões e detenções de manifestantes. Na noite de quinta-feira, sete pessoas foram detidas após incidentes que incluíram danos a uma agência do Ueno Bank e ferimentos em um policial. Entidades sindicais também anunciaram mobilizações em defesa dos fundos previdenciários.

O escândalo desestruturou a base política de Peña. Integrantes do Partido Colorado, inclusive setores próximos ao ex-presidente Horacio Cartes, passaram a apoiar sua saída. Ministros e assessores importantes deixaram o governo enquanto avançavam as investigações. Peña negou irregularidades e, antes da destituição, defendeu que os responsáveis pelos problemas bancários fossem investigados e que a recuperação das economias dos depositantes fosse priorizada.

A mudança de governo também repercute no Brasil. Integrantes do governo Lula acompanham a crise política paraguaia, especialmente por seus possíveis impactos na fronteira e na administração conjunta da hidrelétrica de Itaipu. Peña era um dos aliados regionais de Donald Trump, e sua destituição altera o quadro político de um país estratégico para as relações brasileiras na América do Sul.

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